Resolução para o novo ano

Há um medo que me tem vindo a assaltar o espírito, mês após mês, neste ano que passou.
Tomei como resolução para o novo ano, não deixar que o medo tome conta de mim, apenas que me torne ágil e alerta, mas não frágil.

O medo para mim começou em Agosto quando o comboio que às vezes apanho para ir a Bruxelas foi salvo de um ataque pelos militares que lá seguiam viagem. Imaginei-me sentada naquele comboio, com as tralhas normais – casacos, mochila do computador, carteira, e toda a parnafernália que me acompanha normalmente – e impotente perante o cenário que foi descrito na televisão.

Depois vieram os ataques de Paris a 11 de Novembro e a descoberta que os atentados tinham sido planeados e executados por residentes de Bruxelas. E por coincidência, tinha há bons meses o fim-de-semana seguinte planeado com a minha família em Bruxelas. Carros militares, polícias pesadamente armados, equipa especiais anti-bomba, snipers: foi possível ver tudo isto, logo nos primeiros 500 metros da porta do nosso hotel.

Foto: a praça central de Bruxelas, horas antes do nível maximo de alerta terrorista ser definido.

Tudo correu bem, felizmente saimos da cidade antes do alerta mais alto de atentado e as coisas passaram, mas ficou mais um bocadinho de receio.

Veio Dezembro e o Natal estava à porta. Tive que trabalhar na Alemanha, perto de Colónia e tive a excelente oportunidade de visitar durante a noite, depois dos dias de trabalho os famosos mercados de Natal da cidade, de fazer algumas compras e relaxar, mesmo sendo no meio do rebuliço tipico das épocas mais altas para o turismo na cidade.

Semanas depois, mesmo no ínicio do ano, veio a notícia que naquele mesmo sítio, centenas de mulheres foram agredidas por um grupo organizado. Na mesma praça, em que passei umas boas vezes, onde começavam os mercados de Natal e onde tudo parecia tão luminoso.



 Foto: os mercados de Natal em Colónia

Os episódios de medo repetem-se nos últimos dias. E tocam outras pessoas de outras formas, tal como estes eventos me tocaram a mim em particular. A onda propaga-se e aqueles que gostariam de ganhar rejubilam. Todos os outros choram e o seu coração aperta-se.

Sei que nunca estarei totalmente imune a deixar influenciar-me pelas notícias que me chegam, mas como resolução de novo ano, não quero ceder ao medo – temer quando entro no comboio todas as manhãs, pensar duas vezes quando visito uma cidade ou refrear-me a andar sozinha.  Todos os dias é preciso manter a alegria mesmo que não seja uma alegria inocente e despreocupada. Num fundo uma resolução para 2016 e um desejo profundo de paz!

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Boteco

Este post foi escrito para o projecto “Boteco das Tertúlias”, em colaboração com 4 fantásticas bloggers. Para conhecerem as suas resoluções de ano novo, basta clicarem aqui, aqui, aqui e aqui.

 

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2 comentários

  1. Olá, reconheço algumas das tuas preocupações, infelizmente…
    Hoje voltei a Paris, mas da útima vez que cá estive foi quando tudo aconteceu. Vim directamente de Istambul, onde tinha havido eleições e ainda vi manifestações de jovens com petardos e a polícia a ir-se embora e eu e os meus colegas com medo. Passei um fds sozinha por lá e voltei ao hotel assim que ficava escuro. E houve recentemente o atentado no local onde também lá passei em Novembro.
    Portanto depois de 2 semanas de trabalho, estava ko, aterrei no aeroporto CGD e o taxista pergunta se eu estava a par dos acontecimentos. Cansada e a tentar relembrar o francês, foi uma corrida de táxi alarmada até chegar ao hotel, a tentar saber de notícias pelos amigos no whatsapp, em Português ou Inglês. Saí do hotel timidamente no sábado a ver se encontrava comida, com a família a dizer para não sair de sítio dito seguro… era a 10min da Torre Eiffel, alvo óbvio, silencioso, fechado, coisa rara. Tinha estado na Disney de Paris em Julho, imagino a confusão instalada nesses dias com o parque fechado, coitadas das crianças, a desilusão e incompreensão… e a paciência dos pais a tentar explicar?…
    Nesse fds, de planos arruinados, claro, tive amigos em situações de (falso) alarme, aquelas correrias e coisas partidas a fazer barulho, mas viver os acontecimentos in loco não dava segurança nenhuma, cidade vazia, o que fazer? A cada som de ambulância ou polícia saltava o coração… Muita polícia nas ruas e controlo de malas até no escritório. Segurança multiplicada devia dar sinais de… segurança, mas ficamos mais inseguros a ver armas e presença policial, não estamos habituados…
    Regressei dessa viagem pela Air France, onde tinha havido ameaças de bomba e aviões desviados. O avião estava vazio, tal foram as desistências…
    E também passei na Bélgica na altura do alarme. Hoje vim de Thalys e é claro que me passou pela cabeça os acontecimentos de há uns meses atrás. Não estava lá eu mas estava o meu chefe a regressar a Paris.
    O que fazer? Seguir a vida normal dentro dos possíveis… Estar alerta, dos perigos, da situação, mas tentar não entrar em paranóia… há tantos factores a ter em conta…
    Quando éramos pequenos havia outros medos… água, mar, cães, pássaros, andar de bicicleta?
    Ter cuidado a atravessar a rua, ser assaltados por “simples” carteiristas, ser atingidos por um raio em noite de tempestade?
    Passo diariamentee no túnel de Schiphol para ir para o trabalho, no comboio…
    Colónia não está relacionado, mas também já lá estive em mercados de Natal e o que se passou, infelizmente, pode-se passar em qualquer sítio, em qualquer noite ou esquina :(

    Hoje em dia aprendemos a viver com isso, mas nunca conseguimos controlar tudo…

    Mantém-te contactável, com bateria no telemóvel (e um power bank, já agora…) e siga! Temos a sorte de viver em sociedades abertas, não há que desperdiçar a liberdade de podermos sair de casa, de andar sozinhas (como mulheres), de termos casa e salário para jantar fora, ir ao cinema e conviver com amigos…

    1. Joana, é exactamente isso! E são bons conselhos. Não consigo imaginar o que é estar em Paris nesse fim de semana…estar em Bruxelas no fim-de-semana seguinte já foi impressionante pelas piores razões, mas como dizes, é preciso mesmo chutar a bola para a frente e jamais perder a apreciação pela sociedade livre em que vivemos. Muito obrigada pelo comentário (é bom saber que não estou sozinha!)

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