Os três gatilhos da saudade

Certo dia, ia eu normalmente no caminho de volta do trabalho para casa, enquanto pedalava com relativa boa disposição, por uma rua residêncial com algumas árvores, quando inesperadamente sou atingida no coração pelo som de andorinhas de final de dia (sim, na minha cabeça, existe diferença no pio que as andorinhas fazem de manhã e do de final de dia). Cheguei a parar a bicicleta para vê-las com mais atenção, mas era tarde de mais, um dos meus gatilhos da saudade tinha sido premido.

Andorinhas bem bem bem no alto

Andorinhas bem bem bem no alto

Naquele preciso instante, lembrei-me das andorinhas que costumavam fazer ninho na varanda da minha avó e das andorinhas que faziam voos baixos ao longo da Rua do Alecrim e que acabavam o seu voo junto da algazarra de pardais nas árvores do largo do Cais do Sodré. Lembrei-me do pôr do sol em Lisboa, dos meus sapatos na calçada e na sensação de relaxamento que sentia ao ouvir essas andorinhas antes de apanhar o comboio. Lembrei-me de toda a minha rotina em casa, da minha familia e amigos, infância e afins. Viajantes por natureza, descobri da pior maneira, que são para mim um potentíssimo gatilho de saudade e melancolia.

Até aprecio doses controladas de saudade, talvez sejam coisas da Alma Portuguesa, mas quando a bala nos atinge, não de raspão, mas de surpresa e bem profundo, é preciso ter cuidado.

Felizmente é um fenómeno descrito por quase todos os expatriados de várias nacionalidades, tenha-se ou não queda para a melancolia. Por curiosidade encontrei uma infografia na internet que alerta para três gatilhos da saudade: (1) ouvir falar a nossa língua mãe ou uma língua estrangeira com o mesmo sotaque que o nosso, (2) datas especiais e grandes eventos familiares (a que vamos inevitavelmente faltar) e (3) um pequeno cheiro, som ou sabor que nos lembra de repente de casa. O meu episódio com as andorinhas enquadra-se claramente neste último.

Capture

Meus amigos, os gatilhos andam aí a cada esquina prestes a ser premidos, e é preciso contorná-los com sabedoria, para nossa sanidade mental. Diz a mesma infografia que o remédio é manter-nos conectados com a família e amigos, não ficar sozinho, apanhar o avião de vez em quando e abraçar cultura e coisas que nos entusiasmam. Tenho tentado praticar estas máximas sempre que possível.

O mais irónico, é que estou já antecipar o dia em que as Andorinhas de Lisboa me façam sentir saudade das de Utrecht. C’est la vie! Estou curiosa, e quais são os vossos gatilhos?

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6 comentários

  1. Sempre que como pasteis de nata na Bakkerswinkel em Utrecht, fico cheia de lagrimas nos olhos

    1. Como te compreendo Ana!

      A proposito adoroo o Bakkerswinkel (o cheese cake deles e fenomenal tambem). Mas dificil, dificil e ignorar os pasteis de nata mesmo em cima do balcao. beijinhos

      1. Bom bom é ir ao armazem do Neves em Zwanenburg, isso é um balsamo para a alma, assim que chego a entrada e vejo as pastilhas gorila é como se tivesse chegado a casa 😀

  2. Encontrar comida Portuguesa nos supermercados! Acabo sempre por comprar tudo o que encontro, acho que me faz sentir mais perto de casa

    1. Tens que me dizer que supermercados vais :) Eu nunca encontro nada, apenas o vinho Gatão e similares :(

  3. Gostei muito deste post. É tão bom ler as palavras de alguém que entende e que escreve coisas que poderíamos ter sido nós a escrever! Para mim, o som das andorinhas é sempre um gatilho. Lembram-me sempre a praia e do mar gelado… Os gatilhos inesperados conseguem ser quase piores do que datas como o Natal, para mim. Beijinho

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