Delft para além da Porcelana

Obviamente que Delft é mais para além da Porcelana.

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Foto: a caminho do Centro de Delft, passando pelo mercado de antiguidades

No fim-de-semana passado pudemos descobrir uma cidade encantadora, que na minha opinião é muito parecida com Utrecht, com algumas diferenças fundamentais é claro. Em Delft existe uma praça rectangular bem ampla que estabelece o centro histórico da Cidade. Em Utrecht apesar de existir um centro oficial junto à Câmara Municipal, é mais contido em si próprio. E apesar das ruas serem largas, os edifícios altos convergem para as ruas e impõem uma sensação de proximidade maior. Em Utrecht sentimos nos abraçados, em Delft sentimos que podemos respirar um pouco melhor, sente-se mais espaço, maior liberdade. Para esta sensação, acho que também contribui a própria estrutura dos canais, menos profunda que em Utrecht.

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Foto: um dos canais principais de Delft

A praça Central é limitada por duas grandes Igrejas e  junto a uma delas está a estátua de Hugo Grotius, nascido em Delft em 1583, uma das grandes referências da lei internacional.

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Foto: Estátua de Grotius

E perante a presença desta figura imponente, há também história Portuguesa à mistura. Tal como a história da Porcelana de Delft em que duas caravelas Portuguesas com porcelana chinesa foram capturadas por piratas holandeses, mais ou menos na mesma altura em 1603, a Caravela Portuguesa Santa Catarina foi capturada em Singapura por um navegador Holandês.

Este género de actos de pirataria, que favoreciam a Dutch East India Company, eram altamente criticados moralmente por parte da sociedade Holandesa da altura,  e também a nível internacional. No entanto, apesar de não apoiar oficialmente o uso da força, a Dutch East India Company apreciava os resultados dos saques que eram feitos a navios de nações inimigas.

Portugal, que na altura estava sob domínio Espanhol, e por isso em Guerra com a Holanda, opões-se legalmente contra a empresa e pediu a devolução das mercadorias roubadas da Caravela. A empresa Holandesa contratou Grotius para estabelecer a defesa e assim se marcou o início da carreira deste jurista. O desfecho do caso não consegui apurar, mas às vezes é preciso seguir viagem e não ficar obcecado com os saques do passado.

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Foto: onde terá nascido Jan Vermeer

Assim, seguindo a nossa viagem por Delft, e dizendo adeus a  Grotius, virando-lhe literalmente as costas, podemos encontrar na fachada de uma casa antiga, que faz esquina com uma rua perpendicular à praça central, sob o que é hoje uma loja que vende porcelana de Delft, uma placa que diz “Foi nesta casa que nasceu Jan Vermeer”.

O aclamado pintor da Rapariga do Brinco de Pérola só foi realmente colocado no pedestal da fama internacional perto do século XIX, pois na realidade no bom velho século XVII  morreu pobre e desconhecido. Assim, a placa é só uma referência, porque nada da verdadeira casa de nascimento ou casa de vida do Vermeer resta em Delft dos dias de hoje. Existe apenas um Centro Cultural Jan Vermeer que nem chega a ter uma pintura verdadeira dele. Todos as suas obras estão espalhadas por outras cidades.

Por isso, decidimos deixar a descoberta da obra de Jan Vermeer para outra ocasião, talvez para uma próxima visita ao Rijksmuseum em Amsterdam, e seguimos até ao fundo da praça central, e até mais uma ruas acima, até encontrarmos o Museu  Het Prinsenhof.

Este museu conta a história do primeiro Rei da Holanda – “William of Orange” e do seu papel na criação da Nação Holandesa. A exposição apresenta-nos as figuras mais importantes na Revolta Holandesa e da Coroa Espanhola, incluindo o temido Duque de Alba. É engraçado perceber que tal como a identidade nacional de Portugal, a identidade Holandesa surge da oposição a Espanha.

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Foto: o local do assassinato de Willem of Orange

E é exactamente neste sítio do Prinsenhof, onde podemos encontrar as marcas na parede das balas que assassinaram William of Orange. Estas balas partiram da arma de um fervoroso apoiante da coroa espanhola que se infiltrou no Prinsenhof, e a uma distância curtíssima disparou contra o Rei. Esta fotografia foi tirada exactamente no mesmo sítio em que os tiros foram disparados. Não sei porquê, foi impossível não sentir um calafrio por estar a pisar exactamente o mesmo chão, e a olhar para exactamente as mesmas escadas onde ocorreu um assassinato. Acho que nunca tinha sido confrontada com essa realidade de forma tão directa e tão bem explicada.

Este assassinato foi o primeiro atentado da história a uma figura política com uma arma de fogo. Quantos depois se seguiram? Bom, são tantos na realidade, que listar os mais óbvios deixaria ainda muitos de fora.

No entanto, e apesar do assassinato, Willem of Orange foi o pai da Monarquia Holandesa e da dinastia que ainda hoje está no poder, e marcou o início da afirmação de uma identidade nacional que é a Holanda. Até então, a Holanda não era mais que províncias com governos autónomos.

Ao sair do Het Prinsenhof foi com algum espanto que descobrimos que uma das filhas de Willem of Orange, que foi marido de 4 mulheres ao longo da sua vida,  casou com um pretendente à coroa Portuguesa: o Príncipe Manuel.

Esta placa colocada no Museu Nusantara, que hoje é um museu dedicado à arte da Indonésia, diz-nos que ali naquele edifício em Delft viveram 4 das netas do Willem of Orange, e que por isso a casa ficou conhecido como a Corte das Princesas de Portugal.

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E quando se vai ao wikipedia tentar perceber o que ali aconteceu, percebe-se logo que esta família tinha queda para o drama e para o género de romance de faca e alguidar,  e que por isso daria uma excelente mini série de época.

Contornos gerais: Willem of Orange, o pai da monarquia Holandesa, no seu segundo casamento, casou com Anna da Saxonia. A Anna   não lhe faltavam pretendentes, mas mesmo assim decidiu casar com Willem of Orange com quem teve 5 filhos, sendo a mais nova Emilia. Mas Anna apaixonou-se, nada mais nada menos, pelo homem que viria a ser anos mais tarde, fruto de outra relação, pai do famoso pintor Rubens, e foge com ele. O Willem não gostou da conversa e pede o divórcio.

Anos mais tarde a sua filha Emilia segue as pisadas da mãe a nível de controvérsia e apaixona-se por Manuel I de Portugal. Como Manuel era Católico e ela Protestante, esta união não tinha a aprovação de qualquer um dos lados das barricadas familiar. Mesmo assim casam-se em segredo. Por não terem o apoio familiar vivem sempre com poucos meios, mas mesmo assim têm 8 filhos, dos quais 6 são raparigas. Mas para continuar a tradição familiar, a primeira filha deles Maria Belgica, já prometida em casamento, foge com outro tipo. Mais uma escandaleira familiar, e pior do que isso, esta escandaleira reduz a chances de casamento das suas restantes irmãs. Só uma consegue casar, e as outras 4 são as mencionadas naquela placa, que viveram,  esperemos nós, felizes em Delft longe de problemas matrimoniais.

Dava ou não dava uma boa série de época? Com traições e cenas escaldantes à mistura.

Mas as horas da nossa visita a Delft já iam longas  e o Museu Nusantara já estava fechado.  Não deu para visitar, talvez para uma próxima vez dê .

Saímos calmamente sem direcção definida. Depois de tanta informação só queríamos encontrar um café antes de seguir para a estação de volta a Utrecht.  E ficou provado que Delft é muito mais do que porcelana.

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2 comentários

  1. […] multidão de fãs incondicionais da sua técnica depurada e da sua atenção para o detalhe. No post sobre Delft, onde Vermeer é originário, falo um pouco mais sobre a sua […]

  2. […] visita à cidade de Delft com uma visita ao Festibérico, podem ver posts antigos sobre a cidade aqui e […]

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