City to Cities: Daniel Kehlmann e a presença literária de Lobo Antunes

O Festival Literário City to Cities começou este fim-de-semana.

A cidade de Utrecht convida outras duas cidades a apresentar os seus autores e a suas obras. Para nossa grande felicidade, Utrecht convidou este ano Lisboa e Berlim. Quais são as probabilidades? É como se o destino tivesse a ser suave connosco e como se nos quisesse fazer sentir o mais em casa possível. Durante esta semana, um grande número de autores Portugueses e Alemães vão estar presentes em Utrecht, entre eles José Eduardo Agualusa e Gonçalo M. Tavares, e outros grandes vão ser evocados, como Fernando Pessoa.

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Foto: Cartaz de apresentação do festival

Ontem tínhamos bilhete para a sessão de António Lobo Antunes e de Daniel Kehlmann. Infelizmente Lobo Antunes teve que cancelar a sua presença numa série de eventos europeus, mas a sua presença literária fez-se sentir com uma excelente apresentação do seu tradutor  Harrie Lemmens sobre a sua obra. Obra essa que está muito além da guerra colonial,  da ditadura, e de Salazar, apesar desses serem esses os temas frontais. Há mais para além das primeiras impressões. E há também uma forma única de construir os seus livros, uma melodia especial e um ritmo próprio. É sem dúvida um dos nossos maiores escritores.

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Foto: Encontro de Lobo Antunes e Daniel Kehlmann

Depois, entrou em cena o escritor Daniel Kehlmann, que eu não conhecia. Mas há muitas razões para o conhecer. Este senhor é um autor incontornável da literatura da Alemanha, com meio milhão de cópias vendidas, só com o seu livro “Measuring de World”, que em Português se chama a Medida do Mundo.

Este romance retrata as personalidades muito distintas de dois gigantes cientistas do Iluminismo alemão: Alexander von Humboldt e Carl Friedrich Gauss.

A narração começa quando os dois eminentes sábios se encontram em Berlim, no ano de 1828. Humboldt, aristocrata e asceta, fanático da medida, torna-se um dos fundadores da moderna geografia graças às suas incansáveis explorações pelo mundo, enquanto Gauss, o Príncipe das Matemáticas, prefere ficar sentado à secretária fazendo cálculos, longe de viagens, exilado de um futuro a que sente pertencer. Apesar das diferenças que os separam, têm em comum o anseio de compreender o mundo através de fórmulas verificáveis pela Razão.

A Medida do Mundo manteve-se durante cerca de um ano à cabeça das tabelas de vendas na Alemanha e foi traduzido em 34 países. Daniel Kehlmann é considerado um renovador da literatura de ficção em língua alemã.

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Imagem: Capa do livro A medida do mundo

Meio milhão de cópias é um grande número, e é geralmente o número pelo qual todas as conversas com Daniel Kehlmann se iniciam. É um número difícil de ignorar, fácil de invejar, e também fácil de temer.

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Foto: Daniel Kehlmann na apresentação de ontem

Porque afinal, não será este número também uma forma de prisão? Quando se escreve um livro que vende meio milhão de cópias é fácil ficar-se preso à necessidade de voltar a vender meio milhão de cópias no livro seguinte. De continuar a agradar uma legião de fãs com o mesmo tipo de conteúdos. A essa pergunta, Daniel Kehlmann respondeu, que sim, que é possível ficar preso a tentar perseguir uma fórmula do sucesso, e que muitos foram os jornalistas que lhe perguntaram quais seriam os próximos dois cientistas que ele iria dar vida no seu próximo livro. No entanto, a solução que encontrou para este dilema, foi simplesmente perceber que, em vez de se deixar prender a uma linha narrativa, estava na verdade livre para fazer o que lhe apetecesse, porque a pressão de criar um best seller já tinha sido ultrapassada. Um género de “Been there, done that”, que lhe permite agora experimentar outros géneros literários, mesmo que isso não agrade a todos os fãs dos seus anteriores livros.

Daniel Kehlmann e Lobo Antunes, uma dupla improvável, mas que resultou numa sessão  muito interessante. Fiquei com vontade de mergulhar nos livros de ambos. E nem a propósito hoje é o dia mundial do livro!

Já leram algum livro destes autores? Quais são as vossas impressões? Planos especiais para celebrar o dia mundial do livro? :)

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2 comentários

  1. Parece interessante esse do Daniel Kehlmann!!! E o festival literario parece ter um programa altamente!!! Cá já estão a cancelar as feiras dos livros =( Então e o holandês, já dominas? para começares a ler em holandês :P bjs ;)

    1. É verdade, e às vezes há iniciativas com muito significado que se podem fazer com pouco dinheiro. É só preciso ter imaginação. A aprendizagem do Holandês vai caminhado, como todas as línguas aos poucos…infelizmente não se aprende por osmose! Têm que se fazer um esforço todos os dias…mas sim, para mim sobretudo jornais seria importante começar a conseguir ler :D

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