História de uma caixa: a guerra holandesa do cacau

Tudo começou quando hoje de manhã ao arrumar a tralha na cozinha, olhei com mais atenção para esta caixa que está num dos armários:

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A caixa veio no pacote da mobília da casa, mas até agora nunca tinha reparado nela. Até porque está completamente enferrujada, e  não era uma opção viável para guardar o quer que seja, porque corríamos o risco de apanharmos tétano logo de seguida.

Mas hoje, reparei na palavra mágica: Cacau!

Não é preciso grandes explicações para dizer que sou fã de chocolate. Especialmente aquele com mais 70% de cacau, pela simples razão de que o chocolate com mais de 70% de cacau, torna o prazer de comer chocolate bastante mais saudável e faz bastante bem ao coração. True story! Tenho autorização explicita para o atacar de vez em quando, e desde aí, ando bem mais atenta às marcas.

Ora, tenho à minha frente uma caixa antiga de cacau holandesa de 1kg, com uma bonita paisagem de um canal, com a indicação que é de Amesterdão, e com as seguintes instruções: “para um copo, junte duas colheres de chá de açúcar, uma colher de cacau. Com água ou leite a ferver, em seguida, misture“.

E logo a seguir, um conjunto de questões surgem na minha cabeça:  “Será que esta marca ainda existe? Esta caixa é de quando? A empresa foi fundada por quem? De onde vinha o cacau e era mesmo produzido em Amesterdão?”

Primeira descoberta, esta caixa deve rondar o início da década de 20 do século em que eu nasci e a empresa é a Gebr. Sickesz, fábrica de  cacau, importadores de açúcar bruto de cana e frutas tropicais, com sede em Amesterdão na morada Brouwersgracht 152-156, bem perto da estação Central.

O mais interessante, foi a segunda descoberta, uma vez que para chegar a estes factos, tive que desembrulhar toda uma guerra épica e corporativa que se passou nos mesmo anos – a guerra Holandesa do Chocolate dos anos 20!

Ao que pude deslindar, depois de várias traduções trapalhonas holandês-inglês no tradutor do google, esta marca uniu-se com outro grande nome Holandês no mercado do cacau da altura – a Kwatta. Esta última empresa, era um nome muito popular, que tinha emergido de uma crise dura em 1907, para se afirmar durante a Primeira Guerra Mundial por fornecer barras de chocolate aos soldados. Tinha fábrica na cidade de Breda e a origem do seu cacau era do Suriname, colónia Holandesa.

A empresa Sickesz posicionava-se no mercado com o seu pó de cacau – onde entra novamente a caixa em destaque – e barras de chocolate.

O que era ao início uma joint-venture bem sucedida, passou a ser em 1924 uma guerra pela simples razão que foi criada uma 3.ª marca pelos fundadores da Sickez, que competia directamente com os produtos da Kwatta. A brincadeira envolveu tribunais, manchetes de jornais, tudo mais um par de botas, e eventualmente deu-se o final da parceria e a reorganização de ambas as empresas.

Depois, num mercado por si só já competitivo, com outras marcas bastante fortes e que estão no mercado até aos dias de hoje, como a Van Houten, as duas empresas competem ferozmente. Ambas lançam muitas campanhas de publicidade nos jornais, mas há um momento em que as vendas da Sickez não acompanham as da Kwatta, e depois é difícil discernir com exactidão, das traduções mal-amanhadas do Holandês, o momento da machadada final da Sickesz, e em que esta desaparece do mercado para sempre.

Quanto à Kwatta também sofreu um rude golpe na Segunda Guerra Mundial, mas o nome não desapareceu e em 1972 a marca, desde 1913 no mercado belga, foi reavivada com o relançamento da Kwatta nutella (desde 1935 no mercado belga obter). Hoje faz parte da americana Heinz e tem três produtos no mercado belga: nutella, sprinkles e cacau em pó.

Guerra do Cacau

Resta-me uma caixa aqui na cozinha, e que está tão bonita nesta publicidade, e devem haver muitas mais iguais mais por aí, com toda a certeza.

É sempre interessante pensar que mesmo há 100 anos atrás o capitalismo já era assim, feroz e mercenário, com campanhas agressivas, manchetes de jornais, mercados em alta, mercados em baixa, mesmo quando o mundo devia correr a uma velocidade bem mais lenta, e sobretudo quando se tratava de um produto tão doce como o chocolate.

Fontes: http://adviz.nl/nl/object/13176/http://otterlok.home.xs4all.nl/GPR/Tjoklat%20de%20Oprichting.htm

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One comment

  1. […] que o chocolate tem um certo temperamento aditivo e é verdade! Depois de ter lido tanto sobre a guerra holandesa do cacau no início do século XX, vi-me a recuar mais uns anos, até às primeiras histórias empresariais […]

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